por Tales Nunes
Na Gita, Krishna tenta mostrar para Arjuna que renunciar à ação é uma ação e trará seus devidos resultados. Não adianta fugir. Então, ele fala sobre karma e sobre dharma, sobre ação, resultado de ação e o papel de cada um na vida, no campo social.
Porém, a fala de Krishna, se mal interpretada, pode dar a entender que devemos nos adequar totalmente ao meio social. Pode soar como uma ode ao cumprimendo do dever como submissão.
Acho importante lembrar, à luz do Hatha Yoga, que todos temos um renunciante dentro de nós. Quando a Hatha Yoga Pradipika fala que o hatha yogi deve praticar em uma pequena cabana, livre de perturbações, em um local seguro. Simbolicamente, a Hatha Yoga Pradipika quer dizer: em um local retirado. Um lugar em que a quietude possa ser contemplada.
Não é necessariamente um retiro na montanha, na floresta ou no meio do deserto. É um retiro do campo social. Um local em que a pessoa possa se despir de todos os papeis sociais, para se reconhecer como uma amplitude inerente. Estar em meio à natureza ajuda, mas não é necessário, o fundamental é deixar de ser quem se é enquanto representação social.
Para muitos é difícil, porque a identidade está totalmente vinculada aos papeis. Mas apesar disso, acredito que, no fundo, no coração de cada pessoa, há um renunciante. Não aquele a voz do medo que foge dos compromissos e das ações que precisam ser feitas, mas um convite mais profundo: o convite da nossa natureza fundamental. Uma dimensão que anseia por silêncio, simplicidade e liberdade, que clama por ser reconhecida como é: o amor, livre de qualquer objeto, o amor livre de qualquer papel ou representação. Um amor que, uma vez reconhecido como plena abertura, pode se manifestar, como vigor e sensibilidade, em tudo o que fazemos.
Tales Nunes, Florianópolis, 27 de julho 2026.





