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Yoga, Poesia, Formação, cursos, reflexões

O Yoga e a formação num sentido mais amplo

por Tales Nunes

O sentido do termo “formação” é muito mais amplo do que costumamos pensar. Especialmente quando o usamos para nos referir à formação em Yoga. Muitas pessoas pensam que uma formação em Yoga consiste tão somente em aprender uma técnica para aplicá-la e, a partir desse raciocínio, muitos buscam se tornar professores de Yoga como uma profissão, sem necessariamente sequer ter tido contato com a prática. Querem aprender a técnica para aplicá-la.

“Formar-se” professor de Yoga não é apenas aprender uma técnica, é estar apto a transmitir um conhecimento que faz parte de si mesmo. O primeiro trabalho para se tornar um professor de Yoga deve ser a sua formação pessoal, mas não no sentido acadêmico ou técnico apenas, como se costuma pensar. Esse sentido de formação faz, obviamente, parte do caminho de um professor de Yoga – portanto, um curso de formação é essencial –  mas gosto de usar o termo “formação” no sentido empregado pelo movimento romântico alemão, de bildung, para se referir à construção de si mesmo a partir da construção das coisas no mundo, num contínuo processo de aprendizado.

Falo de uma abertura para as experiências da vida. Receptividade que aqui coloco em dois caminhos: primeiro para o contato sincero e pessoal com o Yoga e consigo, e, consequentemente, a aceitação, o acolhimento das experiências da vida, que fazem parte da dinâmica do autoconhecimento.

É impossível pensar em ser professor de Yoga antes de ser um aluno, um praticante. Primeiro vem o encantamento, depois a motivação para encantar os outros com aquilo que nos tocou. O contato com o Yoga desperta um mundo de vida em nós. Abre um caminho para conhecer desde partes adormecidas de nosso corpo à lugares até então escondidos em nossa mente. É um caminho que revela tanto nosso lado mais difícil de enxergar, quanto a beleza que podemos oferecer ao mundo, por isso o encantamento com o conhecimento, com a prática de Yoga, que ilumina o amor, revela a paz presente em cada um de nós. Esse encontro consigo mesmo abre a possibilidade e o caminho de encontro com o outro e por isso muitas pessoas querem compartilhar o que experienciaram. Esse segundo movimento é um desejo inerente a todo professor, pois dar aula é arte do contato com o outro.

Vejo como essencial ao professor nesse processo de se tornar algo para ao outro, de servir de veículo desse conhecimento, abrir o peito e a mente aos contatos externos com a Vida, simultaneamente à imersão em si mesmo que o Yoga proporciona. Desse ponto de vista, viagens – no sentido de abertura para o novo -, conversas, encontros, leituras, são fundamentais para que ele se construa enquanto pessoa. Tudo o que possibilite o encontro com o outro – não apenas humano, mas outro como o mundo em si, incluindo a natureza e suas belezas – e lhe forneça material para um entendimento mais amplo da vida, para além de si mesmo, é riqueza.

Podemos pensar em duas linhas que ampliam o nosso horizonte de visão. Uma vertical, no tempo, que nos dá um sentido histórico da vida, mostrando-nos que houveram outras formas de viver, abrindo-nos à pensar que podemos construir novas possibilidades de ser e estar no mundo, a partir de nossas ações hoje. Portanto, o estudo da história é fundamental, a trajetória dos povos e como viveram, e nesse contexto, em especial, o estudo da história do Yoga, a consciência de sua riqueza cultural. Outra linha é horizontal, está relacionada ao espaço, e nos mostra que existem outras formas de ver o mundo ao nosso redor. Ou seja, é uma linha de abertura e entendimento que nos permite ter os olhos atentos para a realidade de outras pessoas e grupos, percebendo que cada maneira de ver o mundo é um universo particular, é uma riqueza própria que nos traz crescimento, ao mesmo tempo que podemos colaborar com nosso olhar. Mesmo que não concordemos, é importante entender como outros universos funcionam, pois queiramos ou não, convivemos num mesmo ambiente, cada vez mais interconectado e interdependente.

Vivemos no encontro entre essas duas linhas. A partir do entendimento delas, ou seja, da consciência do lugar e do tempo em que vivemos, podemos fazer uso do Yoga e sua tradição milenar, que nos oferece profundos e amplos recursos no tempo e no espaço, como forma possível de intervenção e de ajuda ao outro. Acredito que o papel do professor de Yoga é se localizar em relação à riqueza do Yoga, sua origem, conhecendo sua história e amplitude e ao mesmo tempo entender como aplicá-la em nossa realidade, com as pessoas que nos relacionamos dia-a-dia e seus problemas cotidianos.  Para isso, a formação como técnica é fundamental, mas a abertura para o autoconhecimento, a partir do contato consigo e com o outro, é essencial e e contínua. Essa formação não acaba nunca.

O engajamento do professor de Yoga é o comprometimento constante com essa “formação”. Ajudar a enriquecer o olhar de outras pessoas a partir de sua vivência pessoal, aliada ao vasto conhecimento do Yoga. A experiência especial do professor de Yoga está sentada numa arte constante de construção e “formação” de si mesmo e, apenas como consequência, uma contribuição para a construção e “formação” do outro. Todo professor de Yoga, todo buscador,  é um yatri, um constante peregrino em busca de conhecimento.

Florianópolis, 10 de dez 2014

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