por Tales Nunes
Aprendemos muito observando os animais. Eles se movem na vida com muito mais graça do que nós, não é difícil perceber.
Você já viu a força e magnitude de uma onça pintada na floresta? Ela caminha com a graça e a potência do relaxamento. Sobe numa árvore e se esparrama preguiçosamente sobre um tronco para descansar. Porém, quando necessário, toda sua atenção e força se direcionam para a luta ou para a fuga. Uma explosão. Logo em seguida, essa energia se dissipa e ela retorna ao seu elegante equilíbrio.
Nós perdemos essa graça. Perdemos porque esquecemos que a vida, em seu estado natural, é relaxamento. Acreditamos que viver é lutar, com pequenos e raros intervalos de repouso.
Por isso, vivemos em constante estado de alerta, mesmo sem uma ameaça imediata. Para nós, há uma ameaça que paira, alimentada pela pressão social de ser algo dentro de uma hierarquia, pelo medo da escassez produzida para nos manter produtivos. São diversos os tipos de cobranças que nos fazemos, mesmo quando não há um perigo diante de nós. Quando nos vemos, estamos presos num estado de luta – irritação e trensão constante -, de fuga – ansiedade -, ou de congelamento – apatia e dissociação.
A vida não é uma luta. Nela, há embates naturais. Nosso corpo está preparado para isso. Mas nosso corpo não está pronto para viver em constante disputa. Nas tribos ameríndias, trabalhava-se em média três horas por dia. Era o suficiente para se ter tudo o que precisava. Não havia acumulação. O resto do tempo era dedicado aos rituais, à dança, à brincadeira, ao cuidado ou ao repouso, como a onça pintada. É um ideia equivocada pensar que eles viviam continuamente ameaçados pela natureza ou por invasão. Nós estamos criando isso para nós mesmos hoje, como um efeito neurótico da ideia de que a vida é luta e produção. Criamos um desequilíbrio ambiental que nos ameaça, como reflexo da forma como tratamos o lugar em que vivemos. Criamos a competição de todos contra todos, como reflexo da ideia de que a vida é uma luta. Dentro desse ambiente mental e social, a neurose se multiplica e o corpo não suporta.
A graça natural se encontra no equilíbrio entre tensão e relaxamento, entre projeção e abertura.
Como diria Patanjali, “o ásana deve ser firme e confortável”. Como é graciosa uma onça pintada caminhando na floresta, em sua potência e em seu repouso. Sejamos como a onça pintada. Que a natureza e o Yoga nos ensinem o equilíbrio.
*artigo do meu próximo livro: Yoganidrá
Tales Nunes é psicólogo, sociólogo e mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Aprofunda diariamente seus estudos e práticas de Yoga e na tradição védica e integra o conhecimento da Filosofia, da Psicologia e da literatura sagrada de outras culturas ao caminho do autoconhecimento. Atualmente ministra a Formação em Yoga em Florianópolis, cursos online e workshops pelo Brasil.






