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A morte de Jesus

Penso que a beleza de Jesus foi não ter sido filho de seu pai e de sua mãe, apenas, mas ter sido filho da Vida. Penso que a grande beleza de Jesus foi ter sido ele mesmo o amor que transcende a família, apesar da igreja ter considerado permanentemente a família como fundamento da sociedade. 

Jesus ensinou um amor difícil de compreender com o intelecto. Um amor radicalmente inclusivo. Um amor que incluía homens, mulheres, prostitutas e seus próprios inimigos. Quem eram os inimigos de Cristo? O poder. Como seu coração incluía todos, sua ética não era moral familiar, o que defendia afrontava diretamente o poder – aqueles que exploravam e segregavam, na época, o império romano. Seus inimigos eram aqueles que, tomados pelo poder, exerciam poder sobre os outros.

Por esse motivo, Jesus disse: “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. O reino dos céus, para Jesus, não é um lugar distante, é a comunhão do pão e do vinho na terra, alimento e celebração da vida. Quem é regido pela ganância não conhece essa alegria. A beatitude não é a recompensa da virtude, é a virtude mesma.

A luta de Jesus, não foi contra um povo, não foi contra uma pessoa, foi contra a ignorância. A ignorância do egoísmo e da ganância, contra o entorpecimento que deturpa a vida. Jesus disse, no evangelho de Tomé, “Oxala que todo aquele que tem poder, possa renunciar a ele”.

Seu amor era tão forte que suas palavras se tornaram um perigo ao império. Sua mensagem ganhou força popular, ímpeto de transformação. Até o momento em que o próprio império se apropriou das palavras de Jesus e atrocidades começaram a ser feitas em seu nome. Violência, exclusão, exploração.

Nos evangelhos sinóticos, Jesus pronuncia: “a lamparina do corpo são os olhos. Se teu olho estiver são, então todo seu corpo estará iluminado. Mas se seu olho estiver enfermo, todo seu corpo permanecerá na penumbra”. Enxergar era o clamor de Jesus. Enxergar a vida mesma como sagrada, o céu não está distante. 

Jesus não ressuscitou depois de sua morte física, ele morreu em vida. Mudou profundamente seu olhar. Era isso que ele queria, que morrêssemos para a separatividade, para renascermos numa realidade compartilhada, o reino do céu na terra. O reino sem rei, sem um salvador. Um reino de irmandade, de solidariedade na diferença.

Dois mil anos depois, as palavras de Jesus ainda têm força no coração de quem não se converte à voz do ódio e da exclusão. Ao mesmo tempo, seguimos a passos largos deturpando o amor de Cristo em nome de Cristo. Usando-o como veículo de ganho pessoal, de dominação e enriquecimento, criando um salvador como representante de algo que conseguimos reconhecer somente em nós mesmo.

Jesus, símbolo de um amor difícil de compreender intelectualmente, morreu assassinado. Seguimos assassinando Jesus, em nome de Jesus. Seguimos matando o amor, Em nome do amor.

(Tales Nunes)

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Tales Nunes
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